
Os barcos do Potengi
Navegam meu olhar
Quando embarcam
Em barco com eles
Quando tu embarcas
Meus olhos marulham
M’embaçam
Me molham de água de rio
Ou é por esses olhos
Que o rio corre, decorre
M’esqueço que outras
Tantas vezes
Sou eu quem vai
Vôos, passeios
Navegos e voltas
Avenidas dos contornos
Você sempre torna, me volta
Retornos
Qual abelha, eu também
Estou sempre no entorno
Corre-corre
Pra boca da barra, que sou
Corre, da boca do rio de você
E m’atiça, desperta os cios
Me beija, me descerra
E me descobre
Revê-lo
Desanuvia, me revela
Descubro teus véus, talos
E flores, afloro
Xananas, acácias
Buganvílias, mangabeiras
Flor de jambo no chão
Qual tapete róseo
Me vem tudo à mente
As imagens mais belas
Minhas carícias sem defesas
Amo como quem não teme
Rósea a flor desperta
Entre pernas que te beija
A espada de santo é tua
E vem intensa, com leveza
Teus em mim
Semens sementes
Te protege Potengi
Em meu rio ventre
Aflue fluente e me molho
De teus molhos e manhãs
Lambuzo-me desse rio
Me banho e m’esbaldo
Te como a tarde, de noite
Na madrugada, na manha
Nem sei onde me ser
Ou me estar
Como te ser star
Me serestar
Qual não me ser
Qual estar
Quero você
Meu anelo de strass
Rio sozinha, à nós
Potiguar, sou atlante
Ou rio-me com tua presença
E mesmo quando ausente
Saudade é isso
Que não se explica
Então é sodade
Sodade, sodade...
E banzo não se benze
Só bate
Que às vezes nem existe
Se inventa
Ou é verdade
Ou é um intento de ausência
Pra sentir mais
O que se sente
E escrever quiçá
Um poema
Me pressa o rio sem presas
Me preza o rio sem pressa
Potengi não é Danúbio, Sena
Ganges, Guaíras nem Tejo
É o do norte, grande
E é o rio que amo e prezo
Desrepresa-se um rio inteiro
De amar, d’ardor
Fitar você é transe
Trance de olhares em flamas
É transa, corpos em trança
Me beija a cidade, correnteza
E esse amor de mililitros
M’embriaga, me néctar
Navego com ele
O crepúsculo me leva longe
Fico sem saber onde é onde
O não-sei-onde
Onde eu te encontre
Encante, você me cante
No quando, num quarto
De horas, num canto
Às vezes a dista é dentro
Nem é nos longes
Onde encerro meus pés
O agora e os ontens
Onde o finito me horizontes
Infindos
Na terceira margem
Do rio, das visagens
Todos amanhãs
Que me encontrem
Até nas tangentes
Nos passos, esparsos
Onde minhas mãos
Me escorrem, m’escapam
Artimanhas sensações
O Potengi me é porto e ponte
Aporte dos sentires
E quereres
É da vida, cenário, inventário
Roteiro, mirante
Alma cheia de braços
E mangues
Me navega pros teus ondes
Flagrantes, vazantes
O Potengi, amor...
Pois é, ele me tange
[c.m] Civone Medeiros


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